Falaremos
agora sobre o controle da ventilação…
Abaixo temos uma representação esquemática dos fatores que afetam o
controle bulbar da ventilação pulmonar, os quais discutiremos a seguir:
Fatores neurais:
A atividade inerente dos neurônios inspiratórios com corpos celulares
localizados na porção medial do bulbo governa o ciclo respiratório normal. A
duração e a intensidade do ciclo inspiratório responde ao centro neural no
hipotálamo que integra o influxo proveniente dos neurônios descendentes nas
áreas locomotoras superiores.
Durante o exercício, os ajustes
ventilatórios ocorrem em virtude de alterações mecânicas e/ou químicas dentro
dos músculos ativos e de sua rede vascular induzidas por sinais neurais
ascendentes iniciados para proporcionar um controle periférico de
retroalimentação (feedback) do cerebelo para o centro
respiratório.
Os pulmões contêm receptores sensoriais que se comunicam com o centro
respiratório através de aferentes nervosos vagais. Vários irritantes, como
poeira, poluentes do ar e fumaça de cigarro ativam esses receptores a fim de
iniciar um reflexo da tosse:
Quando a irritação atinge a cavidade nasal, há o
desencadeamento do espirro. Ambos os reflexos ajudam a manter limpas as vias
respiratórias, pois a irritação brônquica costuma acarretar sua constrição.
Fatores humorais
Em repouso, os estado químico do sangue exerce o
maior controle da ventilação pulmonar. Variações em PO2, PCO2, pH e temperatura
arteriais ativam as unidades neurais sensíveis no bulbo e no sistema arterial,
de forma a ajustar a ventilação e a manter a bioquímica do sangue arterial
dentro de limites estreitos.
Os quimiorreceptores periféricos funcionam como o local primário
para detectar a hipóxia arterial e desencadear reflexamente uma resposta
ventilatória. Uma redução na PO2 arterial, como ocorre na doença pulmonar ou ao
subir para uma grande altitude, faz aumentar a ventilação pulmonar em virtude
da estimulação dos quimiorreceptores aórticos e carotídeos. Esses receptores,
isoladamente, protegem o organismo contra uma pressão reduzida do O2 no ar
inspirado.
Os aferentes quimiorreceptores periféricos também
estimulam a ventilação no exercício, principalmente, pelo aumento na
temperatura, na acidez e nas concentrações de CO2 e de potássio.
Em repouso, a pressão do CO2 no plasma arterial
proporciona o estímulo respiratório mais importante:
A acidez do plasma, que varia diretamente com o
conteúdo de CO2 do sangue, exerce um comando significativo sobre a ventilação.
Uma queda no pH do sangue assinala a presença de acidose e reflete
habitualmente a retenção de CO2 e a subsequente formação de ácido carbônico. O
pH do sangue também pode diminuir em virtude do acúmulo de lactato no exercício
vigoroso ou do acúmulo de ácidos graxos (cetonas) no diabetes. Seja qual for a
causa, a atividade inspiratória aumenta a fim de eliminar o CO2 e reduzir os
níveis arteriais de ácido carbônico.
Então, após ter discutido a regulação
da ventilação de modo geral, focaremos, a partir de então, a regulação da ventilação durante o exercício…
Pois bem, nem a estimulação química,
nem qualquer outro mecanismo isolado é responsável inteiramente pelo
aumento na ventilação (hiperpneia) durante a atividade física:
Influência cortical: o
fluxo anterógrado neural proveniente de regiões do córtex motor e a ativação
cortical como antecipação do exercício estimulam os neurônios respiratórios no
bulbo para iniciar o aumento brusco na ventilação do exercício.
Influência periférica: o
influxo sensorial proveniente de articulações, tendões e músculos influencia os
ajustes ventilatórios durante todo o período do exercício.
Influência da temperatura: com
exceção da hipertermia extrema, uma elevação na temperatura corporal exerce
pouco efeito sobre a regulação ventilatória durante o exercício. Na maioria das
condições, o aumento na ventilação no início do exercício e seu declínio
durante a recuperação ocorrem com uma rapidez excessiva para que possam
refletir algum controle por parte de alterações na temperatura corporal.
Influência química: durante o exercício vigoroso, com o
componente anaeróbico relativamente grande (acúmulo de lactato), as maiores
concentrações no CO2 e no subsequente H+ proporcionam um estímulo
ventilatório adicional:
Analisaremos no gráfico
abaixo, o comportamento das curvas de lactato, VO2, VCO2 e ventilação em um
teste de cargas progressivas:
· Até o 1º limiar, a ventilação aumenta pelo
mecanismo central e periférico (quimiorreceptores) por causa do estímulo do CO2
produzido pelo metabolismo e do movimento que estimula os receptores;
· Após o 1º limiar, a produção de ácido lático e o
seu tamponamento começam a aumentar. Os hidrogênios liberados pelo
ácido lático reagem com o bicarbonato (H2Co3) formando o ácido carbônico, que é
separado em água (H2O) e CO2 nas hemácias. O CO2 produzido pelo tamponamento é
o responsável pelo aumento da ventilação entre 1º e o 2º limiar;
· Após o segundo limiar (anaeróbio) a capacidade de
tamponamento chega ao limite, mas a produção de ácido lático continua
aumentando, isso provoca o acúmulo de hidrogênio no sangue, que estimula os
quimiorreceptores a aumentar ainda mais a ventilação.
Em suma, os efeitos combinados e talvez de vários
estímulos químicos e neurais iniciam e modulam a ventilação alveolar do
exercício…
Para exemplificar de outra maneira, mostraremos no
gráfico abaixo como se dá aregulação integrada da ventilação:
Fase I: o aumento rápido em relação ao valor de repouso e
curto platô em virtude do impulso do comando central e do influxo proveniente
dos músculos ativos;
Fase II: a elevação exponencial mais lenta começa
cerca de 20 segundos após o início do exercício. O comando central continua,
juntamente com a retroalimentação (feedback) proveniente dos músculos ativos
mais o efeito adicional da potencialização a curto prazo dos neurônios
respiratórios;
Fase III: os principais mecanismos reguladores alcançam
valores estáveis; o influxo adicional proveniente dos quimiorreceptores
periféricos realiza a sintonia delicada da resposta ventilatória.
A curva inferior verde representa apenas a contribuição da
potencialização a curto prazo dos neurônios centrais e da elevação na
concentração de H+ arterial para a resposta respiratória total.
Na recuperação, o declínio brusco na ventilação quando o
exercício cessa reflete a remoção do impulso do comando central e do influxo
sensorial proveniente dos músculos previamente ativos. É mais do que provável
que a fase de recuperação mais lenta resulte de diminuição gradual da
potencialização a curto prazo do centro respiratório e restabelecimento do meio
ambiente metabólico, térmico e químico normal do organismo.
Referências utilizadas:
MCARDLE, W. D., KATCH, F. I., KATCH, V.L. Dinâmica
da Ventilação pulmonar – Sessão 3. Fisiologia do Exercício – Nutrição, Energia e
Desempenho Humano. Rio
de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. p. 294 – 311.





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