terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Altitude e Mergulho

Mais de 40 milhões de pessoas vivem, trabalham e se divertem em elevações terrestres entre 3048 m e 5486 m acima do nível do mar…
Mas por que pessoas oriundas de outras regiões sentem tantos efeitos quando entram em contato com esse ambiente?
Pois bem pessoal, discutiremos a seguir as principais alterações fisiológicas que ocorre em nosso organismo na altitude e o porquê delas…
Primeiramente, analisaremos, a partir da figura abaixo, as modificações nas variáveis ambientais e fisiológicas com elevações progressivas na altitude:




A densidade do ar diminui progressivamente com uma ascensão até acima do nível do mar. O ambiente seco ao nível do mar e em determinada altitude contém 20,93% de O2, enquanto a PO2 (densidade das moléculas de O2) diminui diretamente com a queda na pressão atmosférica ao ascender para maiores altitudes. Essa queda da pressão alveolar do oxigênio em relação à pressão atmosférica justifica-se em função do trânsito difusional dos gases entre os sistemas alveolar e capilar por gradiente de concentração.
O oxigênio tanto é transportado  de forma livre, dissolvida no plasma – 3% do total – , quanto ligado à hemoglobina – o que corresponde a 97% do total. A afinidade da hemoglobina ao oxigênio é regulada através de sua conformação molecular tetramérica, ou seja, quando 100% saturada (com as 4 subunidades ligadas ao O2), a molécula protéica assume uma disposição espacial que garante alto grau de atração pelo oxigênio. Em função da diminuição da PO2, inicia-se a atuação de uma força no sentido da remoção de uma das moléculas do gás.

A relação entre a saturação da hemoglobina e a pressão sanguínea de oxigênio, chama-se curva de saturação da hemoglobina. O aumento da temperatura sanguínea, o aumento da PCO2, a redução do pH, o aumento na concentração plasmática de 2,3 difosfoglicerato e a diminuição da pressão inicial de oxigênio, verificada na veia pulmonar, causam o deslocamento da curva para a direita. À medida que o sangue passa pelos pulmões, o dióxido de carbono difunde-se do sangue para o alvéolo. Isto reduz a PCO2,  bem como a concentração de ácido carbônico, aumentando o pH. Diante destas modificações, a curva de saturação da hemoglobina é deslocada para esquerda e para cima:



Quanto maior for o percentual de saturação molecular, menor será a liberação de oxigênio para os tecidos; o que configurará um quadro de hipóxia.
A hipóxia arterial que acompanha a redução na PO2 desencadeia tanto os ajustes fisiológicos imediatos à altitude quanto o processo mais prolongado de aclimatação que refere-se às adaptações produzidas por mudanças no meio ambiente natural:
Respostas imediatas à exposição à altitude:
A chegada a elevações de 2300 m e ainda mais altas induz ajustes fisiológicos rápidos destinados a compensar o ar mais rarefeito e a redução concomitante na PO2 alveolar. As duas respostas mais importantes incluem:
* Aumento no impulso respiratório para produzir hiperventilação;
* Aumento no fluxo sanguíneo durante o repouso e o exercício submáximo.
* Síntese de hemoglobina e de hemáceas e alterações concomitantes na circulação local e na função celular aeróbica;
* Atividade neuro-humoral simpática elevada refletida por uma maior quantidade de norepinefrina.

A hiperventilação devida a uma PO2 arterial reduzida reflete a resposta imediata mais importante e óbvia do habitante nativo das planícies ao deparar-se com uma exposição à altitude. A baixa pressão de oxigênio excita os quimioceptores periféricos aórticos e carotídeos, ativando o grupo respiratório dorsal do centro respiratório, no tronco cerebral. O aumento da ventilação provoca maior eliminação de CO2, desencadeando a alcalose respiratória, bem como seus sintomas associados: tontura, enjôo, náuseas, vômito e sonolência. Estes sintomas iniciam-se algumas horas após a chegada a lugares altos e atingem a máxima intensidade em torno de 3, 4 ou 5 dias de permanência.

Como resposta cardiovascular à altitude, temos um aumento na frequência cardíaca e débito cardíaco submáximos. Além disso, o volume sistólico e débito cardíaco máximo poderão sofrer uma ligeira redução.

A pressão arterial e a frequência cardíaca elevadas na altitude coincidem com um aumento inexorável nos níveis plasmáticos e nas taxas de excreção de epinefrina  e norepinefrina. Essa atividade simpatoadrenal aumentada contribui para a regulação da pressão arterial e resistência vascular.

O ar ambiente nas regiões montanhosas continua sendo frio e seco, tornando possível uma evaporação considerável de água corporal à medida que o ar inspirado é aquecido e umedecido nas vias respiratórias. Essa perda de líquidos costuma resultar em desidratação moderada e em concomitante secura dos lábios, da boca e da garganta.

Ajustes a médio e longo prazo à altitude:

Três importantes ajustes a médio e longo prazo aprimoram a tolerância à hipóxia relativa das médias e grandes altitudes:
* Regulação do equilíbrio ácido-básico alterado pela hiperventilação;
A médio prazo, o organismo passa a excretar água e bicarbonato, no intuito de combater a alcalose respiratória. Já que o bicarbonato tem características básicas, a sua excreção causa queda de pH, o que minimiza um pouco os sintomas agudos da alcalose respiratória. Em contrapartida, a curva de saturação hemoglobínica volta a ser deslocada para a direita, prejudicando a captação do oxigênio. A eliminação hídrica que acompanha a excreção urinária de bicarbonato gera um quadro de hemoconcentração, diminuindo o volume plasmático e aumentando a osmolaridade do sangue. Em decorrência da hemoconcentração, promove-se o aumento da resistência vascular e a subseqüente diminuição do fluxo sanguíneo renal. O aumento da osmolaridade do sangue  gera secreção de ADH, aumentando a reabsorção renal hídrica na tentativa de reverter a queda do volume plasmático.
Este fenômeno, entretanto, ameniza mas não elimina a hemoconcentração, que passa, então, a estimular o rim  à produção de eritropoetina, hormônio que age sobre a medula óssea vermelha, estimulando a eritropoiese, processo através do qual hemáceas maduras são formadas e liberadas na corrente sanguínea. Estas novas hemáceas geram aumento do hematócrito e do volume sanguíneo, o que garante o transporte de oxigênio estabilizado e normalizado. A partir deste momento, o indivíduo pode ser considerado adaptado à altitude.
Então qual seria o tempo necessário para a aclimatação?

O tempo de adaptação também varia de acordo com a altitude: para 1600 metros é necessário uma semana, e a cada 600 metros a partir deste valor, necessita-se de mais uma semana para adaptação dos mecanismos de transporte de O2.
Em termos de desempenho físico, não há alteração na performance até uma altitude de 1500 metros. A partir deste valor, para cada 1000 metros, o VO2máximo é reduzido em 10%, o que implica em perda significativa em desempenho aeróbio.
Na prática, podemos observar isso em jogos de futebol, em que times completamente despreparados saem derrotados da altitude.
Mas então qual seria  a conduta indicada nesses casos onde não há tempo suficiente para aclimatação?
Diante destas situações, o time visitante é hospedado em uma cidade litorânea não muito distante do local da partida.  Sua translocação para o estádio onde se dá a competição é realizada no dia do jogo ou, se possível, no momento do jogo, a fim de submeter o atleta ao menor grau de estresse de altitude. Caso o time chegue com 3 ou 4 dias de antecedência na cidade alta, todos os sintomas da alcalose estarão no auge de sua manifestação, o que significa ser esta a pior alternativa.

MERGULHO
Achados apresentados por arqueólogos marcam que a prática do mergulho data de período muito antigo, até mesmo a.C.. Assim podemos entender a evolução de equipamentos e técnicas empregadas nesse esporte.  Contudo o simples fato de imergir o corpo em água já acarreta modificações na fisiologia cardio-respiratória, devido a força da pressão hidrostática exercida sobre a superfície corporal.
Entre os principais efeitos no sistema cardio-vascular estão aumento da frequência cardíaca, aumento do retorno venoso.
Já no sistema respiratório, de acordo com Lei de Boyle, estabelece que, em uma temperatura constante, o volume de determinada massa de gás varia inversamente com sua pressão. Assim conforme maior profundidade, maior a pressão e menor o volume pulmonar.

Referências utilizadas:

MCARDLE, W. D., KATCH, F. I., KATCH, V.L. Exercício nas Médias e Grandes Altitudes – Sessão 5. Fisiologia do Exercício – Nutrição, Energia e Desempenho Humano.  Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. p. 611 – 630.

Nenhum comentário:

Postar um comentário